Crônica: 80 longos e felizes anos

Crônica em homenagem ao Dr. Henrique Tommasi Netto, por Delano Câmara.

Não, não estou doente e, mercê de Deus, há muitos anos nem uma gripezinha andou incomodando o meu nariz e nem me trazendo aquela dorzinha no peito, frescuras hoje comuns até em homens de mais de cinqüenta anos. Aperto os braços, a cabeça, e nada.

Pelo contrário, e se tanto não fosse tão antigo, diria que estou hoje me sentindo como se estivesse vestindo uma tanga, uma bermuda curtíssima tapando o que hoje se convencionou chamar de partes íntimas, em cima de um galho de árvores, acompanhado de um enorme macaca preta e, agarrado a um cipó, gritando a plenos pulmões o nome da então minha melhor amiga Chita, a macaca do Tarzã.

Não se assanhem, pois Roses, Vanessas, Vânias e outras tantas senhoras e senhoritas que aqui não cito pelo delírio de tê-las deixado partir sem que eu nada tivesse feito para impedi-las de loucuras que tais. Mas eram outros os tempos, minha tresloucada e jovem cabeça não imaginava ainda como era árdua essa tarefa de se estar só, dando asas à imaginação de que sempre, em alguma esquina qualquer, se vá encontrar outra igual e que suporte esse gênio irascível cuja fantasia, graças a Deus, já não visto mais.

Tenho pequenas manias, sempre voltar para ver se fechei mesmo a porta e, antes de viajar, conferir se o gás está totalmente fechado e outra – pior – arquivar em uma pasta da cor da morte exames médicos feitos há mais de dez anos para poder aferir o quanto de vida ainda me resta. Essa mania, que reputo grata, esse anseio de repetir o que já foi feito, me veio de Henrique Tommasi, que há cerca de cinqüenta anos me censura, sempre que vou ao seu laboratório reclamando de uma dorzinha no pé, outra no estômago e uma a mais no fundo do coração:

– “Você precisa deixar de estar inventando doenças; pela sua cara Schazneger fica parecendo um velho galo de briga, ao passo que você lembra muito um pintinho recém saído do ovo”.

Aceito a censura. Corro ao meu “dossiê” e vejo que ele tem razão. Nos últimos cinqüenta anos, dos documentos, retirando apenas as mágoas e as angústias do meu coração, frutos e heranças de uma ou outra mulher que um dia amei ou que possa ter me amado, pois os seus complicados aparelhos ainda não medem essas baboseiras, ando muito bem de saúde. Uma excitação mais longa, um disparate sexual mais intenso ou loucuras do homem jovem que fui e depois já um idoso não entraram na estatística: só as taxas de testosterona que – meu Deus – já se achegam ao calcanhar é que hoje me trazem a sensação de que estou ficando velho. E um velho rabugento, acrescenta, em tom de brincadeira, o meu estimadíssimo amigo.

Você, velho Henrique Tommasi, está hoje fazendo 80 anos e, trilhando os mesmos caminhos, venceu e vencerá sempre, quer com seus amigos, que são incontáveis, quer com os que o acompanham diariamente na sua estrada, que deve ser muito florida, segundo o anjo que o guarda diariamente, mercê dos cuidados de quem o procura e que só gratificam seu imenso coração.

Esse burburinho que hoje deve cercá-lo pois, afinal, 80 anos é uma vida inteira, que Deus o mantenha vivo ao seu lado e bem junto do seu coração. Só dizer a você “feliz aniversário” é repetir o óbvio, no que tange ao “feliz”, pois isto você sempre é. Quanto ao “aniversário”, já disse em outro artigo que escrevi a seu respeito que você apenas sobe mais uma vez a montanha de sua vida e, como um soldado vitorioso que planta sua bandeira no alto do morro conquistado na guerra, ouve de todos os lados de sua trajetória:

– “Você venceu, cara”.

E acrescento agora: venceu você e todos nós que tivemos a felicidade de acompanhá-lo na luta do dia a dia. E nunca se afaste do mastro de sua bandeira: segure-o com força e determinação, e quando a velhice maior chegar e as forças tanto não mais lhe permitirem, não se preocupe: sua linda família e a legião dos seus amigos o manterão de pé. Como de pé está há mais de cinqüenta anos, pois construído sobre a rocha da caridade, da determinação e que vento ou tempestade alguma é capaz de desfazer!

Que Deus o abençoe!

No que me respeita, prefiro manter em segredo o laço que nos une. Não fosse você, que me atendeu sem mesmo saber quem eu era, de onde vinha e seu meu dinheiro daria para pagar o que até hoje lhe devo, sem picaretagem alguma pois você sempre se recusou receber o que talvez tenha salvado a minha vida, o meu histórico e até a família que constituí tempos depois.

Que Deus o conserve entre nós por muitos anos ainda, que seu andar seja sempre firme e que seu coração seja sempre caridoso e forte. E se um dia, mercê de Deus, nos encontrarmos na eternidade, que não sejamos só almas, mas carne viva para que o abraço fraterno tenha o mesmo sentido do que lhe envio nesta data festiva.

Do seu eterno grato e fervoroso amigo!
Delano

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