Pesquisa realizada em Vitória estima consumo de sal

Pesquisa em parceria com Tommasi revela que capixabas consomem muito sal! Saiba o porquê e qual o grande problema.

O aumento da incidência de doenças crônicas vem ocorrendo nos últimos 50 anos em praticamente todos os países do mundo. Essas doenças ocorrem com mais frequência em adultos e seu aparecimento é fortemente influenciado pela idade. Desta forma, o aumento da expectativa de vida vem acompanho do aumento da carga de doenças crônicas na população geral. Em 1960, por exemplo, a expectativa média de vida no Brasil era inferior a 50 anos e hoje é superior a 70 anos. Como consequência temos mais casos de hipertensão arterial, diabetes, derrame, infarto do miocárdio, insuficiência renal, doenças do aparelho locomotor (artroses, principalmente), dentre outras.

Hoje, os leitos hospitalares são ocupados majoritariamente por pacientes portadores destas doenças. Um fato agravante para esse quadro é que as doenças crônicas, em geral, não têm cura, apenas controle. Como consequência, uma vez diagnosticadas (como a hipertensão arterial e o diabetes), precisam de tratamento para o resto da vida. Como a expectativa de vida é maior e o aparecimento destas doenças têm ocorrido cada vez mais cedo, o tempo de tratamento (e, consequentemente, o seu custo) vem aumentando ano após ano.

Pode-se citar como exemplo a insuficiência renal crônica (IRC). Esta condição é mais comum de aparecer em diabéticos e portadores de hipertensão arterial. Se os portadores destas doenças recebem tratamento adequado, isso preserva a estrutura e função renal. Entretanto,se essas doenças não são tratadas de forma adequada, o rim vai sendo gradualmente lesado. Chega-se a um ponto em que esse órgão não é mais capaz de eliminar as substâncias tóxicas que são continuamente produzidas em nosso organismo. Começam então a aparecer os sinais da IRC (inchaços, anemia, cansaço excessivo, etc). Nessa fase, o tratamento é a hemodiálise, ou seja, a filtragem periódica do sangue por um rim artificial. O paciente para se manter vivo vai depender, para o resto da vida, das sessões de hemodiálise que precisam ser feitas, em geral, 3 vezes por semana. Cada sessão tem duração média de 4 a 5 horas. A qualidade de vida do paciente torna-se muito ruim (a vida passa a depender de uma máquina) e os custos são muito elevados. Dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 120 mil pacientes dependem de hemodiálise no Brasil. O SUS gasta mais de 1 bilhão de reais por ano somente para fazer a hemodiálise desses pacientes. Fora os demais custos com internações hospitalares, medicamentos, etc. Portanto, existe hoje um grande esforço das autoridades de saúde para prevenir a insuficiência renal.

Como vimos acima, o diabetes e a pressão arterial fora de controle são os dois fatores predisponentes mais importantes para a falência progressiva dos rins. A prevenção desse quadro precisa ser feito com o diagnóstico precoce dessas doenças e seu adequado controle. Além disso, outras medidas podem contribuir para a prevenção da IRC, incluindo a redução do consumo de sal. O consumo excessivo de sal (sódio) sobrecarrega os rins e acelera sua perda de função decorrente da idade e das doenças crônicas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem empreendido várias campanhas para se conseguir uma redução do consumo de sal e estabeleceu como meta que o consumo diário máximo deveria ser de até 6 gramas. Na maioria dos países o consumo de sal é superior a 10 g por dia. Em alguns, como Portugal, é superior a 12 g/dia. Não se sabe até esse momento qual o consumo médio de sal na população brasileira, pois não foi ainda realizado estudo desta natureza com abrangência nacional.

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O grupo de pesquisa em “Epidemiologia das Doenças Cardiovasculares” vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas da UFES vem estudando o consumo de sal na população de Vitória há cerca de 15 anos. O consumo de sal pode ser estimado através de questionários ou através da coleta de urina, já que cerca de 95% do sal que ingerimos, vai ser eliminado do corpo pelos rins. Um estudo realizado em Vitória entre 1999 e 2001 determinou o consumo de sal na população de Vitória coletando a urina produzida durante a noite. Cerca de 1600 pessoas participaram dessa pesquisa (Projeto MONICA-OMS/Vitória) e os dados constituíram a tese de doutoramento em Fisiologia Cardiovascular da nutricionista e professora da UFES Maria del Carmen B Molina. O consumo de sal estimado nessa pesquisa foi de cerca de 12,4 g por dia, valor muito acima da recomendação (6 g/dia). Maiores detalhes deste estudo podem ser encontrados no artigo publicado em 2003 na Revista de Saúde Pública.

Um dado interessante, mas muito preocupante, dessa pesquisa foi que os indivíduos hipertensos, que deveriam comer menos sal para auxiliar no tratamento e prevenir a doença renal crônica, ingerem, na verdade, mais sal do que aqueles que têm pressão normal. Isso ocorreu mesmo naqueles indivíduos que estavam tomando remédios para reduzir a pressão. A redução do consumo do sal é essencial para o sucesso do tratamento da pressão alta. Esse dado indicou que essa recomendação ou não era passada pelos médicos para os pacientes ou, se eram passadas, não eram seguidas.

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Mais recentemente um novo estudo foi realizado também na população adulta de Vitória mas com a coleta urinária por 24 horas, que é o exame recomendado (padrão ouro) para se estimar o consumo de sal. Trezentos e trinta moradores de Vitória foram identificados pelos pesquisadores nos seus domicílios e coletaram a urina por 24 horas. Nestes indivíduos também foram coletadas duas amostras de sangue (uma em jejum e outra fora do jejum), além de outros exames clínicos, para ver se os indivíduos eram portadores de outras doenças, incluindo hipertensão, diabetes, infarto, insuficiência renal, dentre outras. O Laboratório Tommasi foi parceiro da UFES nessa pesquisa pois ficou responsável pelas coletas de sangue e pela realização de todos os exames laboratoriais. A inclusão deste Laboratório na pesquisa deveu-se ao elevado padrão de qualidade em suas análises clínicas e pela ampla distribuição dos postos de coleta de sangue não só em Vitória, como também nas cidades vizinhas à capital.

O consumo de sal estimado para a população adulta foi de 10,4 g/dia. Esse menor valor encontrado nessa pesquisa realizada em 2013 em comparação com a anterior realizada há cerca de 15 anos atrás pode sugerir uma diminuição do consumo de sal na população. Entretanto, essa conclusão é prematura pois nos dois estudos foram utilizados métodos de coleta urinária (12 h e 24 h) diferentes. Mas o dado mais preocupante da pesquisa é que apenas 16% dos participantes da pesquisa apresentaram consumo inferior a 6 g/dia. E mais, novamente os portadores de pressão alta (independentemente de estarem ou não tomando medicamentos), consumiram, em média, 20% a mais de sal do que aqueles que tinham a pressão normal. Ou seja, mesmo com todo o esforço da mídia e das autoridades de saúde, o quadro ainda persiste com 3 grandes fatos:

1) O consumo de sal é ainda muito grande (superior a 10 g/dia)
2) Poucos indivíduos situam-se dentro da meta de consumo inferior a 6 g/dia
3) Os indivíduos que mais deveriam restringir a ingestão de sal (hipertensos) ingerem, na verdade, mais sal ainda

Artigo Dr. José Geraldo Mil sobre consumo de sal

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