Como as mulheres enfrentam o diagnóstico de câncer de mama

O exame de imagem deve ser rotineiro na vida de qualquer mulher e serve para analisar o tecido mamário e identificar qualquer anormalidade.

Sentada em um banco em um dos largos corredores de um hospital particular em Sorocaba, interior da cidade de São Paulo, a professora Maria do Carmo Chaguri aguardava o resultado da sua mamografia. Mais uma como tantas outras feitas ao longo dos seus 51 anos. O exame de imagem deve ser rotineiro na vida de qualquer mulher e serve para analisar o tecido mamário e identificar qualquer anormalidade capaz de se desenvolver em um câncer de mama.

Para a professora, nunca houve surpresa com o exame. Só que em 2006, antes mesmo de explicarem o que havia de diferente, ela notara algo atípico. “A enfermeira veio caminhando em minha direção com uma cara sem expressão. Ao invés de me liberar, informou que ia ter que refazer o exame, porque a imagem havia saído tremida”. A professora seguiu para a sala de exame, mas agora com preocupação. “Logo saquei que havia algo de errado. Na hora veio a sensação de desesperança”.

Maria, mãe de dois filhos jovens, voltou para casa sem saber o que estava realmente acontecendo e decidiu não compartilhar com ninguém o que havia se passado durante o exame. Apenas depois de sete dias, durante a consulta com o ginecologista, ela soube do resultado: na mama direita, foram encontrados nódulos e lesões suspeitas de categoria bi-rads 4, que necessitam de avaliação mais detalhada para descobrir se seriam tumores benigno ou um  câncer de mama. O desespero veio à tona, e o medo, também. “Perdi a esperança, mas pensei: seja lá o que for, vou ter que encarar”. Ainda nada havia sido confirmado, antes ela precisaria passar por um mastologista e fazer uma biópsia.

Dessa vez ela não guardou segredo. Quando chegou em casa, dividiu a aflição com o marido, Luiz Chaguri. Ninguém se precipitou nas conclusões, preferiram não pensar nas inúmeras possibilidades. Marcaram a consulta com o mastologista, o mesmo que havia cuidado da sogra e cunhada de Maria do Carmo, quando ambas enfrentaram o câncer de mama.

Maria fez a biópsia e aguardou o resultado. “No dia da consulta estávamos, meu marido, meu cunhado Henrique e eu. O médico abriu o exame e fez uma expressão duvidosa. Eu já sabia. A única coisa que tinha dúvida era como eu deveria reagir. Não sabia se chorava de desespero ou se ria para mostrar tranquilidade a eles”. Era câncer de mama, e entre as reações ela não conseguiu resistir ao desespero diante da incerteza a respeito do que aconteceria dali para a frente. E a primeira pergunta de Maria, já com a voz entrecortada pelo choro, foi: tem cura?

Cerca de 20% das mulheres acham que o diagnóstico do câncer é uma sentença de morte, como revelou um levantamento inédito requisitado pelo Instituto Avon, feito com 1.752 pessoas em 50 cidades brasileiras pelo Data Popular. Contra essa crença, tem-se que na verdade 70% dos casos são curados, e essa porcentagem salta para 95% quando o câncer é detectado precocemente. Por isso, é de extrema importância estar em dia com a mamografia.

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A Dra. Rita Dardes, diretora médica do Instituto Avon e professora do Departamento de Ginecologia da Unifesp (Escola Paulista de Medicina) explica que dificilmente a mulher com câncer de mama morre da doença, mesmo quando o tumor não é recente. “Tudo depende de como ela é orientada. O câncer de mama tem cura, e nós temos ferramentas e tratamentos que prolongam a vida das pacientes”.

Claro que Maria, assim como todas as outras mulheres diagnosticadas com a doença, tomou um grande susto quando descobriu o tumor maligno e até pensou na possibilidade de morrer. Ainda segundo a pesquisa, o câncer é a doença mais temida por 60% das mulheres, sendo que 40% acham que é uma enfermidade que mata rápido e 29% acreditam que não tem cura.

Recebendo o diagnóstico

Ao longo dos 28 anos em que trabalha como coordenador do setor de mastologia do Hospital das Clínicas e do Instituto do Câncer em São Paulo, Dr. José Roberto Filassi presenciou o desespero de diversas mulheres ao receberem a notícia. “É como se uma bomba tivesse caído em cima da cabeça delas, como se tudo tivesse acabado. Essa é a sensação tanto para ela quanto para a família”.

Para 95% das mulheres, o resultado do exame afeta a diretamente os parentes mais próximos. O relacionamento com o companheiro a partir da notícia, por exemplo, é delicado. “Dependendo do tipo de relação, a doença acaba afetando. Os seios são uma zona erógena, mas acabam ‘perdendo’ essa característica para o companheiro e para a mulher. Elas acabam ficando mais inibidas em relação ao sexo e mudam seu comportamento. De amante, eles passam a ser mais um companheiro, um irmão”, afirma Dardes.

Para 38% das mulheres e 40% dos homens, o diagnóstico de câncer de mama pode por fim em um relacionamento. “O homem ao lado da mulher, apoiando-a, é muito importante. A estabilidade emocional faz com que ela vença mais facilmente essa barreira”, reforça a ginecologista.

No dia 07 de fevereiro de 2006, Maria foi submetida a cirurgia. “No processo, são retirados os nódulos malignos. Depois, a paciente passa por sessões de quimioterapia em que são ministradas drogas intravenosas para matar as células cancerígenas ou inibir o crescimento e proliferação. Por último, ela passa pela radioterapia, um tratamento local focado em eliminar o restante de células cancerígenas por meio de radiação”, explica Filassi. Nos casos mais graves, as mulheres passam primeiro por sessão de quimioterapia para diminuir o tumor, em seguida a cirurgia e então pela radioterapia.

Trinta dias depois do processo cirúrgico, a professora passou por seis sessões de quimio. Como esperado, sentiu todos os incômodos do tratamento: enjoos, vômitos, diarreia e perda de cabelo. Mas nada que comprometesse seu dia a dia, como sempre imaginou. “Fiquei mais fraca, mais debilitada, mas continuei levando uma vida quase normal”, lembra.

Evolução no tratamento

Dr. Auro Del Giglio, professor de Oncologia e Hematologia na Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, lembra que a quimioterapia é uma das armas mais importantes contra o câncer e nos últimos 20 anos foram desenvolvidas formas de amenizar os efeitos colaterais do tratamento. “Foram descobertas substâncias que conseguem fazer as células se dividirem mais rapidamente. Quando administradas aos pacientes em paralelo à quimioterapia, os efeitos adversos sobre o sangue serão diminuídos. Com isso, é possível dobrar a prescrição de drogas quimioterápicas sem causar tanto incômodo ao paciente e promover uma rápida recuperação”.

Com a recente medida norte-americana que categoriza o câncer de mama em quatro novas classes, baseadas na genética das células tumorais, os tratamentos tendem a melhorar ainda mais. Esse mapeamento vai facilitar a prescrição de tratamentos, que podem ser definidos não apenas pelo órgão em que vão agir, mas também pelo tipo de mutação. “Nós estamos aprendendo que os cânceres têm características específicas, e isso facilita. Conseguimos individualizar os casos e tratá-los da melhor maneira”, comemora a ginecologista Rita Dardes.

Depois de todo o processo, Maria fez mais 30 sessões de radio e, por fim, conseguiu vencer o câncer. Mas isso não significa que estava livre de acompanhamento. Mulheres que sofreram da doença devem reforçar a atenção com exames preventivos. Anualmente, devem fazer a mamografia e, a cada três meses, o auto-exame. “A mulher não precisa fazer mais de uma mamografia por ano, para não acabar ficando exposta a muita radiação. Caso ela tenha dúvida, deve recorrer ao ultrassom. Apesar de não ser certeiro, ajuda a identificar alguma irregularidade”, explica Dardes.

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Mesmo não tendo passado pela doença, nenhuma mulher pode se isentar de fazer os exames. A partir dos 40 anos, todas devem procurar o ginecologista e passar por exames rotineiros. Aquelas que possuírem histórico da doença em parentes de primeiro grau devem começar a partir dos 35 anos.

A mamografia e o auto-exame são as primeiras formas de identificar a doença, mas cerca de 48% das mulheres não se submetem a eles. Entre essas, metade alega ter medo de descobrir a doença durante o exame, o que é um contrassenso, já que quanto mais rápido é descoberta a doença, mais promissor é o tratamento. O Inca (Instituto Nacional do Câncer) estima que em 2012 haja 52.680 novos casos de câncer de mama no País.

Ameaça à vaidade

Em 2008, durante os exames de rotina, Maria descobriu outro câncer, dessa vez na mama esquerda. Por se tratar de uma recidiva, ou seja, células tumorais remanescentes do câncer anterior estavam proliferando novamente, a professora teve que passar pela mastectomia (retirada da mama). “Quando você recebe a notícia, o mundo desaba novamente. Nesse momento, você quer escolher algo que seja mais certeiro e que acabe definitivamente com as chances de a doença retornar”.

“A mastectomia é decidida pelo mastologista dependendo do tamanho do tumor e do tamanho da mama. Se for um seio pequeno com um tumor grande, é preciso retirar. No caso inverso, não há necessidade. Em situações de reincidência, sempre optamos por retirar”, afirma a diretora. Darde esclarece que ter de retirar a mama não significa que a possibilidade de morte é maior. A taxa de sobrevida é a mesma nos dois casos. Além disso, a ginecologista lembra que não existe tratamento para a doença sem algum tipo de processo cirúrgico. “A quimioterapia é paliativa, não curativa. A cirurgia é indispensável”.

Maria conhecia os dois lados, já havia passado por uma cirurgia conservadora e sua sogra e cunhada haviam retiraram a mama. “Não me preocupei muito com a estética. Minha cunhada retirou a mama e colocou prótese de silicone, eu sabia que não ia ficar menos feminina”. Cerca de 75% das mulheres acham que a doença acaba com a vaidade e que a retirada da mama acaba com a feminilidade, mas hoje há recursos que ajudam a não comprometer a auto-estima. “Ela pode sair da sala de cirurgia com a mama reconstruída, seja com silicone ou enxerto”, ressalta o Dr. José Roberto Filassi. Para as mulheres que não têm acesso aos atendimentos particulares, a Dra. Rita Dardes lembra que o SUS oferece, gratuitamente, a cirurgia de reconstrução. Maria teve que fazer a mastectomia, mas já saiu da sala com a prótese de silicone.

Ela venceu pela segunda vez o câncer, e em 2010 enfrentou-o mais uma vez. Saiu novamente vitoriosa. Mesmo cansada, Maria nunca perdeu a força para lutar contra a doença e, assim como 56% das mulheres que tiveram câncer entrevistadas na pesquisa, também se sente uma vencedora.

Fonte: Drauzio Varella

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